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Minha infância não cabe em dez linhas.

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O primeiro exercício do meu teste psicotécnico era escrever uma redação de no mínimo dez linhas sobre a minha infância. Eu tinha dez minutos pra isso. Fiz um parágrafo bem básico e bonito, como se minha infância tivesse sido um pouco diferente das outras, mas normal. E muito feliz.

Naqueles dez minutos, muita coisa se passou pela minha cabeça. Não sei se a intenção do teste era avaliar rapidez e coerência ou a minha infância mesmo. Se for o primeiro, passei. Se for o segundo, também, mas a minha infância descrita naquelas dez linhas ficou muito vaga, sem a metade da intensidade real.

Mais do que lembrar da minha infância, o que eu quero dizer nos próximos parágrafos é simples: bem ou mal, é por causa deles que eu sou isso aqui. É por causa deles que eu gosto das coisas que eu gosto e que grande parte da coisa toda aconteceu. Minha vida é praticamente uma consequência do que tá escrito aí embaixo. Não me lembro da primeira vez que escutei minhas bandas preferidas, nem do meu primeiro vestido mais lindo ou do primeiro All Star. Meus aniversários eram frequentados por freiras e punks, eu nunca joguei videogame, vivia ralada e com as pernas roxas. Comi veneno de rato e naftalina, mas nem fez efeito. Talvez isso seja suficiente, pode parar por aqui.

Eu tenho lembranças de quando era muito, muito nova. Tenho na cabeça um flash do meu avô, que morreu quando eu tinha um ano e pouco de idade. É quase nada. É um homem baixo, meio careca, de camiseta branca velha que passa por mim, que estou em cima de um balcão dentro da cozinha do buffet da família. Passei grande parte da minha infância lá. Ficava na barra da saia da vó Gera, fazia esculturas com as rebarbas de massa que sobravam, tomava Fanta Uva quente no depósito de garrafas, fazia roupas com as toalhas de mesa, pedia pra minha vó fazer pequenas fogueiras e qualquer absurdo que eu quisesse comer, enchia o saco dos garçons, pentelhava meu pai pra ele me deixar nadar, brincava com tampas de garrafas, tinha um estoque de livros de história, desenhava, escrevia, imaginava que as plantas densas do jardim eram castelos enormes, seguia as filas de formigas e as vezes passava a tarde subindo nas árvores até alguém ficar preocupado e ir me procurar. Também tomava uns choques, uns pontos no pé, tiros de arminha de pressão dos meus primos, caía da árvore, descia a rampa do estacionamento com a minha bicicletinha sem freio e caía na grama e me escondia de alguém imaginário.

E eu também passava muito tempo com os meus irmãos. E com os amigos deles. Lembro de chegar da escola e ter uma galera assistindo Malhação na sala de casa. Me lembro das amigas das minhas irmãs que vinham aqui estudar, de ir em várias feiras de ciências e de quando elas prestaram vestibular. Me lembro das tardes de sábado, da kombi escrito ESCOLARES, da galera que comia pra caramba e que quando me levavam ao banheiro pra escovar os dentes antes de dormir, as vezes eu encontrava por lá algum punk levantando o moicano com sabonete Phebo. Não me lembro da primeira vez que escutei Ramones, Clash ou Buzzcocks. Me lembro do dia que o Senna morreu. Tinha uns caras estranhos em casa. Eles estavam assistindo Fantástico com a gente. Não eram daqui. Há pouco tempo descobri que eram os caras do Cólera. A Clarissa ria quando eu aprontava, a Carol acudia, o Dani me fazia parar de gritar gritando mais alto. E todos eles assistiram Rei Leão incontáveis vezes. E foi quando eles foram embora que eu vi que ia ter que transformar saudade em coisa boa.

E eu patinava. Treinava umas seis horas por semana, cultivava um sem-número de roxos nas pernas, trinquei canela, pulso e consegui cair e bater o patins atrás da cabeça. Bati a cabeça várias vezes. Gostava do brilho das roupas, das coreografias e dos campeonatos.

Aos seis anos, perdi minha tia. Ela era freira. No caminho pra Atibaia, eu achava que ela ainda podia viver. Sei lá, talvez fosse igual a Branca de Neve, mas sem príncipe, porque ela era freira e não podia casar. Câncer. Via minha mãe, minha avó e meus tios impressionados porque ela estava cada vez mais amarela antes de morrer. Eu acreditava que era só a luz. E que ela ia vir pra Londrina sempre pra me trazer aquelas gominhas em forma de urso. Era por causa dela que eu estudava no Mãe de Deus. Ela legal o parque de lá. Brincava de Power Rangers com os meus amigos. Ralei a bunda no escorregador de concreto, uma vez sentei numa abelha e a irmã brigou comigo porque eu sujei a roupa de gala. E tinha aqueles desfiles de sete de setembro que eram bem divertidos. Sempre gostei dessas datas importantes, solenidades e blablabla.

Quando tinha piolho, ia pra casa da vó Belica. Ela fazia bolinho de chuva, eu organizava o armário da máquina de costura dela, brincava com as linhas e dedais. Sempre que passo pela casa velha da rua São Salvador, me lembro do cheiro da infância. Cheiro de hortelã com madeira. Sempre achei que era o cheiro das cadeiras brancas da cozinha misturado com o das balas de hortelã do pote da copa. Quando ela morreu e as cadeiras, junto com boa parte da mobília, vieram pra casa, eu descobri que o cheiro era de uma fábrica de hortelã que tinha ali perto. Depois que a vó Belica morreu, nunca mais comi doces em compota ou milho refogado, que é pra não esquecer do gosto que tinha a comida dela. De vez em quando, dá pra sentir o gosto no fundo de algum molho de tomate. Mas acho que é só lembrança que vem. Ou gosto que aparece no meio de tanta vontade.

Aos sábados, acordava e ia pra cama dos meus pais. De tarde, deitava com a minha mãe na cama dela. Tentávamos assistir uns filmes, mas os ensaios das bandas do meu irmão não deixavam. Gostava quando minha mãe ia pro centro e de ir pra UEL com ela. Passava a tarde pegando umas plantas pra ver nos microscópios do herbário. Chorava quando ela tinha que viajar.

E eu contava os dias pros meus primos chegarem, vivia na casa das tias, rolava no jardim da vó Helena, me escondia naquele arbusto grande e aprendi a tomar café nos fins das tardes de domingo, quando eu sentava na porta da cozinha e escutava bem quieta a mulherada sentada em roda conversar. Eu gostava do sorriso dela. E do sofá. E daquele baú cheio de tecidos que tinha no quarto de costura e da radiola e do quadro do Rubens e daquele porta-retrato vermelho com uma foto da Natália. Quando eu ia na tia Nélia, pintava, comia bolo e a Eliana me ensinava sobre arte. A Ju e o Márcio me levavam pra passear na UEL, a Ana P. cortou minha franja e meu supercílio junto, entre outras mancadas que inexplicavelmente me fizeram amá-la cada vez mais.

E aí deu nisso.

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  1. Pra variar, né?
    Você sabe o que fez de novo, né?
    É sempre assim…
    Blé!

    Responder
  2. Hahahahahaha! Que bonitinho, Daniel!

    Responder
  3. Carolina Dias

    Lindo seu texto! Também me fez chorar, ao relembrar todas essas coisas bonitas que você escreveu!
    Me lembro de vc pequenininha brincando de ciranda com as garrafas de refrigerante vazias… Seus “cachinhos dourados” balançando pra lá e pra cá!
    Beijos!

    Responder
  4. Clarissa Dias

    Má que texto lindo!!!!!! Parabéns!! E como sempre, também chorei em relembrar todos esses momentos deliciosos que passamos juntos.
    Beijos com saudades!!!

    Responder
  5. Lindo Ma, como tudo que vc escreve! Beijos!

    Responder
  6. Muito show Ma… adoro os seus textos, tao cheios de historias, momentos e sabores… o mais show e’ que apesar de 12 anos de diferenca, varios momentos da sua infancia tbm foram momentos da minha infancia, e dos seus irmaos e primos…. e….
    E que delicia essa sua habilidade de registrar tudo isso atraves do seu talento.
    Saudades… beijos…. Impossivel nao se emocionar!!!

    Responder

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