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Vocês são muito gente boa, mas…

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Difícil começar. Recomeçar agora, depois de tantas lágrimas, suspiros, votos, abraços – muitos desconhecidos. Por vezes, parei desnorteada no meio daquela multidão toda, tentando pensar  em…em sei lá o que. Porque de repente, eu fiquei parecida com o meu quarto, aquela bagunça imensa de coisas espalhadas, sapatos despareados, roupas emboladas no armário e papéis por aí.

É coisa que ele sempre disse. Não gostava de ficar muito e…cadê? Foi dormir. Dormiu. E foi como sempre foi. E de algum jeito, sabia. Ficou ali, com aquele sorriso de “Vocês são tudo gente boa, mas eu vou dormir”. E eu dormi ali, no lugar dele – pra onde ele tanto queria voltar, a cama, o chuveiro, televisão, there’s no place like home. Pela primeira vez, em todo esse tempo, consegui descansar. Consegui ter certeza de que não tinha mais falta de ar, nem dor, nem UTI, tubo de oxigênio, mangueirinhas enfiadas pelo corpo ou enfermeiros com ele. E foi quase sem dor. Tava lá, no meio de um monte de gente que ele deve ter apelidado em algum momento da vida. Tava lá, sem bigode pra enrolar e com um sorrisinho no rosto, com aquela cara eterna de que vai fazer piada. Pentearam os cabelos. Desarrumei como sempre fazia. Porque era assim que ele andava.

Fazia questão de ser o que era. Sem a mínima finesse, falando besteira por aí, trocando “bom dia” por “aaaah, te fudê”, usando camisa manchada, bermuda “tomara que me foda”, fazendo a gente pensar numas coisas sérias e mostrando que simplicidade é que é. Sem vaidade nenhuma, conseguia ensinar que o que vale a pena de verdade nessa vida são as coisas pequenas, os gestos simples, o que quase sempre passa despercebido. E isso eu aprendi muito bem.

Sei que ele tá melhor e que era bem resolvido com a tal “indesejada das gentes”, como diz aquele poema do Manuel Bandeira. Agora, esse coraçãozinho aqui tá confortado enquanto a casa tá cheia e a sala transborda gargalhadas – porque ele deixou vários pupilos que, em nome dele, não vão perder nenhuma piada. A dor vai aparecer justamente nas tais pequenas coisas, que ele tão bem me ensinou amar.

A cadeira vazia quando eu chegar da aula, a porta do quarto que não vai abrir quando eu passar a noite em claro fazendo meus trabalhos, o lado da cama, o portão abrindo e o barulho de carro entrando que eu só vou ouvir uma vez no fim do dia, os berros que eu não vou ouvir mais pela casa.

E a vida continua – parece que acabei de ouvir ele dizer. Ele vai de lá, nos dando força através de todas as lembranças e nós daqui, nos apoiando uns nos outros pra se reerguer aos poucos, cada um no seu tempo, para “que também haja liberdade para a tristeza ser sentida, sem cobranças”, como muito bem disse um e-mail que me encheu de conforto e carinho. Tô lendo Manuel Bandeira, que sabia bem dessas coisas e confortada pela família mais maravilhosa do mundo, pelos amigos mais queridos que eu posso ter e por saber que ele estava preparado pra hora dele e pelo fato de o sofrimento não ter sido tão grande.

Agora vocês me dão licença que eu tô cheia de betão feelings e vou ali fazer o que estaria fazendo: dar risada e tomar umas.

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  1. lindo texto. dê risadas e tomes umas!

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  2. Durante parte da madrugada e a manhã toda eu só consegui lembrar de duas coisas: a primeira e a última vez que falei com ele.

    Na primeira eu conheci um pouco dele, um “vai tomá nu cu” sonoro. Na última uma expressão de afeto e carinho que me surpreendeu, seguido do, também sonoro, “á ti fudê!”.

    Um puta cara, no dos melhores que já conheci…

    Responder
  3. Paula Schutze

    meu avô faleceu na semana passada e eu escrevi um texto q terminava com algo assim: não, a gente nunca aprende a lidar com a perda. talvez a gente só aprenda, na verdade, a se conformar com esse tempo de espera, a longa pausa que se forma entre um fim e um recomeço.
    tenha a sua pausa; e que o seu recomeço seja cheio dessas boas lembranças.
    beijos.

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  4. Hoje, indo pra uma gravação com a Karina, passamos em frente à Casa do Estudante aqui de Curitiba e ela contou uma das histórias do seu pai – aquela em que ele, no maior entusiasmo, quebrou os dois garrafões de vinho que tinha comprado pra tomar com a turma… Dei umas risadas e pensei que essa é a melhor maneira de lembrar alguém querido. Concordo com a Paula: as lembranças vão fazer o recomeço. ;-)

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  5. Marcelo Luiz Figueira

    Acho que nunca perdi para todo o sempre pessoas tão próximas como em 2010, que já começou de pé esquerdo logo no primeiro dia, têm sido um ano difícil, e agora, veja só: Fui pego de surpresa, nisso que mais parece uma roleta russa, alguém que nem no fundo de um pesadelo diria ‘adeus’.
    Em Janeiro, aquele meu “pai de férias”, entrando na igreja com duas filhas ao mesmo tempo, vai ficar para sempre na memória como o ‘adeus’ que nunca foi dado, ele e aquele jeito único de ser quem sempre foi, muito bem representado pelo teu texto.

    Eu nunca gostei da morte, não me sinto bem em velórios, enterros, aquele baixo astral faz com que eu me sinta ainda pior. Desculpe-me por não ter ido, Má. Não faço idéia do que é a perda de um pai, mas se te conforta, desejo-te todas as forças do mundo. Teu pai era motivo de orgulho, e para sempre será lembrado por todos nós.

    Parabéns pelo texto, encheu meus olhos de lágrimas, lá de cima, ele certamente riu e tomou umas, por saber que esta outra talentosa filha, já tem uma vida promissora pela frente! Agora ele descansa, e claro, da forma mais pacífica possível, levando consigo todas as alegrias que veio a compartilhar quando ainda estava por aqui!

    Reúna tuas forças, e conte comigo para o que der e vier!

    Aquele abraço, junto aos pêsames do primo!

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  6. caralho marina. fez eu chorar!!! sifudê!!!

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  7. Oi Ma, chorei também… Acabei de falar com a Carol e com a sua Mãe. A única coisa que eu quero dizer é que vocês quatro são o maior orgulho que o Betão poderia ter deixado e que se você tiver saco (como ele diria) escreva com o seu talento imenso algumas das historinhas que você sabe e as que você escutou sobre o Betão. Acho que isso faz a gente mantê-lo mais perto e vai fazer a gente rir das piadas e ficar feliz e orgulhoso pela impressionante capacidade de ajudar os outros. Sem frescura, sem vaidade, direto ao ponto, como ele sempre fez. Beijão pra todos aí. Amo muito vocês.

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  8. Ma
    sem palavras, ainda nao consigo acreditar, acho que so chegando ai, porque por aqui a dor ainda nao passou, pode ser que falta essa uniao e esse amor da nossa familia, pra confortar essa perda.
    Estamos unidos em 2 por aqui, e logo estaremos com vcs.
    O Betao è tudo isso, o seu texto è emocionante, mas do que chorar, me deu paz, e orgulho de ter vivido com ele.

    Amo vc, força ai Pezinha linda

    te ligo esse semana.

    Responder
  9. Má, muito lindo o seu texto…. a saudade dói no meu peito e as lágrimas escorrem sem parar.
    Não consigo escrever…………………….

    Amamos vcs!!!

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