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Machucado

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Talvez fosse tudo mais fácil se eu fosse tão racional quanto aparento ser, se eu não acordasse desesperada e assustada no meio da noite e descobrisse que o que antes só acontecia nos meus pesadelos é verdade. Seria mais fácil se de repente, no meio de tudo, da vida, eu não me desse conta do buraco enorme e vazio que já me atravessa há duas semanas.

E não há abraço, ombro amigo ou palavra de carinho que resolva. A dor é pessoal e intransferível. E a sua tá aí, guardada em algum lugar que você prefere não cutucar. Acho que todo mundo tem lá seus buracos. Acho que no fundo, todo mundo é bem solitário, por isso sai por aí preenchendo esse tiro de canhão no meio do peito com o que bem entender.

É que as vezes a ferida aumenta. E quanto mais a gente vive, maior ela fica, igual aquela vez que eu caí três vezes na mesma casquinha de machucado no joelho e demorou muito, muito pra cicatrizar. O buraco imenso tá ali, coberto por uma casquinha que vem com o tempo, até que a gente tropeça. Ou tropeçam a gente. Aí tem que levantar. Lembro que quando eu caía na patinação, a professora falava pra levantar rápido pra não causar um acidente e me machucar mais.

Aí tinha o forno daquele tempo, não sei como era. Ficava aceso o dia todo. A vó fazia a sopa cedo. E ficava ali, esquentando. Muito, muito quente. Eles chegavam, ela servia a sopa e colocava no prato o arroz do almoço, frio, junto com a sopa, pra não queimar a boca dos filhos. Achava engraçado o arroz que ele não dispensava. Nunca me contou essa história.

E hoje o pote do arroz vai ficar na geladeira, porque ele não vai me pedir pra pegar.

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  1. Clarissa Dias

    Ontem fiz uma sopa de legumes e tinha aquele pode de arroz na geladeira. Lembrei muito dele e comi a sopa com arroz gelado.
    A saudades é muito grande e só o tempo vai curar.
    Seja forte tá!!!!

    Responder
  2. Fábio ( Gaúcho)

    E aí a gente fica tomando um chimarrão, na janela de casa olhando pra algum lugar, aí vc lembra de alguma coisa, a mínima coisa que seja, aí parece que se forma uma coisa na garganta, e o chimarrão não passa mais. Ou trabalhando, na frente do computador ou mesmo no onibus, a gente lembra de qualquer coisinha, começa a escorrer lágrima do olho. As pessoas não entendem, nunca iriam entender mesmo, o Betão não tem explicação.

    Bjs

    Responder

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