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Learn to fly.

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Eu enrolei pra ir até lá, do mesmo jeito que demorei pra ir na chácara depois da morte do meu pai. Tinha medo de que tudo aquilo voltasse, que o sentimento de ler aquela placa fosse tão horrível quanto o que eu senti quando, naquele domingo, sentada no sofá da sala com a toalha enrolada na cabeça, ouvi meu irmão dizer no telefone “mas parada cardíaca?” E aí a vista ficou turva, a pressão baixou, meu irmão me deu o suco de maracujá que ele estava tomando, me mandou trocar de roupa que a gente tinha que ir pro hospital. As pernas bambas, as primeiras roupas jogadas no armário, um terço e o pingente da Mãe Rainha da tia Marilena. Ali, eu já sabia que meu pai podia morrer. E segurava muito forte o pingente e o terço, tentando não pensar em mais nada, pedindo que ele não fosse embora.

É que no fundo, por mais que não quisesse acreditar, eu sabia. Sabia que ele não ia me ver dirigir, nem me formar ou ler uma matéria minha num jornal. Então, quase sem conseguir, eu disse tudo pra ele, que ainda estava ali, apesar de inconsciente. Ele sempre me esperava dormir pra dizer “te amo, filha”. E foi o dia mais horrível, mais cheio de angustia de todos. Chegar em casa e encontrar todo mundo aqui, só esperando que ligassem dizendo que já podia comprar o caixão, fazendo listas pra avisar as pessoas. E eu me revoltava cada vez que falavam no meu pai no passado. Ele estava lá ainda.

E depois de três meses, eu fui ao cemitério. Achei que tudo isso voltaria, do mesmo jeito que voltou quando eu fui passar a tarde com o meu primo Rafa naquele mesmo hospital. Mas não. Estava ali o nome do meu pai do lado do meu vô Carvalho, o sogro. Lavamos o mármore, eu a Carol (e o bebê da barriga dela) e a tia Ana. Colocamos flores coloridas em volta. E aquilo me deu uma certa paz. Indo ao túmulo do meu pai, percebi que ele não está ali. O corpo está sim. E também a bandeira do Corinthians que meu irmão e o Marcio enterraram com ele.

Naquele dia, naquele cemitério, sob aquele sol muito forte e o céu bem azul, eu percebi, de novo, e tive mais certeza ainda, de que meu pai está comigo. E aí eu lembrei de uma frase que a Laura me deixou quando meu pai morreu:  “Não chorem sobre o meu túmulo, eu não estarei lá… estarei no nascer do sol que renasce, alegre, todos os dias”. Bem pouco tempo depois, foi a vez  dela e do Pablito passarem pela mesma coisa e nossos pais devem estar juntos fazendo churrasco em algum lugar, cuidando da gente.

E ontem, no meio da aula, eu fui olhar meu celular e tinha uma mensagem do meu irmão, dizendo que quando eu era pequena, tinha aqui em frente de casa umas plantas que soltavam leite quando eu arrancava as folhas. Ele tinha passado por um jardineiro podando podando plantas iguais a essa. A mensagem terminava com “Deu saudades…”

Não respondi.

Mas só queria dizer que é por isso, é por essas coisas pequenas, por toda essa saudade e por todo esse amor que tá todo mundo aqui, cada vez mais junto, enchendo o buraco no meio do peito com tudo que for melhor no mundo.

A mãe, os filhos, os genros, a

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  1. Menina, me fez chorar de novo.

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  2. Marina, menina… a gente é forte! A gente pensa mas a a gente aguenta! bjos querida ;)

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  3. Carolina Dias

    Má, lindo seu texto! Como todos os outros que já escreveu.
    É bem assim mesmo… a saudade a cada dia que passa só cresce… ficarmos todos juntos ajuda a diminuir o buraco no peito! Daqui há pouco o Pedro chega e talvez o buraco fique menor ainda… (assim espero)… mas sempre estará lá!
    Beijos e se cuida aí!

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  4. Marina, como é lindo ler suas palavras e ficar emocionado. Lembro do Beto sempre. Acho que no fundo, numa escala relativizada, sinto o mesmo que vc, as gemeas, a Marildinha e o portuga. To aqui chorando e escrevendo. Amo vcs, pra sempre. Contem comigo, pra tudo.

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  5. Ai, ai…

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  6. Seu texto está magnífico, parabéns!!! Lembro muito do Pai e sinto muitas saudades também. O buraco sempre vai permanecer ali e as vezes vai aumentar ou diminuir conforme o tempo. Temos que ficar sempre unidos e um cuidando do outro.
    Beijos com saudades!!!!!
    Ahhh vc me fez chorar!!!!

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  7. Márcia Buzalaf

    Puxa, Má… Também estou com lágrima nos olhos.
    Lembro que, depois do último dia de aula do 1o. semestre, minha mãe me ligou dizendo para eu não demorar a sair de Londrina. Depois, ligou novamente dizendo que meu pai estava internado. A sensação que tive, na interminável estrada, era de que ele não resistiria. Morri de medo de encontrá-lo morto. Mas, como vc, tive a oportunidade de me despedir…
    Gosto de vc, Má, como se já te conhecesse. Ou talvez porque temos vidas que se cruzam sempre, seja na música, na política ou na morte. Se eu tenho orgulho de ser sua professora, seu pai, com certeza, deve estar brilhando e brindando.

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