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A história do sorvete

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Ontem, quando eu já estava deitada, tentando me recompor da bagunça que foi esse feriado, o celular apita. Mensagem. Da Leka.

Acabo de quase bater em um maldito carro e quando vejo a placa diz: Cambé-PR. Até perdoei a barbeiragem só porque lembrei dos carrapichos que peguei no trilho do trem.

E aí eu lembrei da história toda e fui dormir gargalhando. Tá. A história.

Era um trabalho de foto, aquela bosta de trabalho. Eram grupos de três pessoas: a pauteira, a repórter e a editora. O professor queria matérias quentes, tipo um atropelamento, uma prisão, mas a gente precisava entregar a pauta uma semana antes. Foi aí que eu adquiri minha bola de cristal. Mentira. Bom, poucas coisas foram mais imprestáveis que essa disciplina aí. Só não foi totalmente inútil porque tinha o Celião, técnico do laboratório de foto. Sabe tudo e faz questão de ajudar a galera sempre com a maior alegria do mundo. Foi aí que eu entendi porque quando eu passei na UEL, todo mundo que tinha se formado lá há algum tempo pedia pra mandar beijos e abraços pro Célio. Das pessoas mais decentes e queridas que existem por ali.

Enfim. Na época, duas meninas tinham sido atropeladas por um trem em Cambé. A Moniqueta era pauteira, a Leka repórter e eu, editora. Moniqueta mandou a Leka pra Cambé. Eu, com toda a minha compaixão e solidariedade, resolvi ir junto. Afinal, eu nasci em Cambé. Não é o que tá escrito na minha certidão de nascimento, mas foi o que rolou. E essa é outra história. Apesar de ter nascido lá, eu não conheço a cidade. Fui pra lá umas duas vezes quando a Florzinha ainda morava lá e outra com o meu pai, pra resgatar minha carteira, que foi achada por um cambeense quando me roubaram ano passado, no dia do meu aniversário.

Lembro que almoçamos no RU umas 11 horas e fomos esperar o ônibus que vai pra Cambé. Não tinha lugar, o ônibus chacoalhava muito, eu devo ter quase caído umas 47 vezes e tava o maior calor de todos os tempos. Era novembro já. Sabíamos que tinha que descer no ponto perto do colégio. Descemos no mesmo ponto que uns meninos de uniforme. Aí começamos as entrevistas. Ninguém falava nada direito e nós também não sabíamos como tirar as falas dos entrevistados. Bom, a Leka desistiu do curso. Mas antes ela tirou essas fotos do trilho do trem (a polêmica toda é porque ele passa do lado de uma escola, as crianças cruzam a linha, pulam vagão e até a morte das duas meninas, não tinha nenhum tipo de proteção ou controle de passagem das pessoas). A Leka é meio artista e tirava foto direito. As minhas sempre saíam cagadas.

Devia ser uma sexta-feira e eu tinha alguma coisa pra fazer, então não ficamos muito tempo na minha cidade natal. No caminho pro ponto de ônibus, paramos num boteco bem podre e horrível – bar do Hugo, se eu não me engano. Acho que a Leka perguntou pro velho se ele era o Hugo. Ou Arthur, sei lá. Comprei uma água e a Leka, um sorvete. Primeiro que o freezer do cara era bem tenso. Pra chegar até os sorvetes, a Leka teve que tirar umas formas de gelo. O sorvete não tinha marca. Mas era de brigadeiro. Quem fez resolveu chamar assim porque era um sorvete de chocolate, com uma coberturazinha dura e uns três granulados colados nela. Fomos pro ponto preparadas pra esperar uns 15 minutos naquele calor infernal. Até lá, a Leka já teria terminado o sorvete.

Em cinco minutos o ônibus chegou. Entramos, eu sentei e a Leka ficou do lado, com o sorvete meio derretendo. O ônibus chacoalhava demais. Imagino como deve ser andar de ressaca naquilo. Olhei pro lado e a Leka tava toda lambuzada, o sorvete derretendo no braço dela e o ônibus balançando. Era difícil se manter em pé e tomar o sorvete sem parecer uma criança de cinco anos. Tanto que a Leka não conseguiu. Emprestei o resto da água que tinha na minha garrafa pra ela limpar aquela meleca, depois pegamos umas folhas de caderno pra ajudar. Uma puta lambança.

Vagou um lugar no fundo do ônibus e a Leka foi sentar lá. Como ela se enfiou no meio do mato pra tirar umas fotos, a calça dela tava cheia – CHEIA! – daqueles carrapichos que grudam na roupa da gente. Teve uma hora que eu escutei uma gargalhada no fundo do ônibus. Era a mulher do lado da Leka. Vi que tinha um lugar vazio e fui pra lá. A tia véia tava se matando de rir porque a menina tava tirando os carrapichos que grudaram na calça dela. Era uma velha muito folgada. E a situação realmente era uma das mais engraçadas que eu já vi.

E foi por isso que meu feriado acabou numa gargalhada.

Depois que a Leka foi embora, ninguém mais aguenta ficar na festa até ela acabar, nem assiste o sol nascer depois da Terça Tilt, dança Stones na calçada, emenda uma festa na outra ou vai pro bar a qualquer hora, em qualquer dia que eu resolver ligar.

E eu sou só amor por essas pessoas que sabem que vão fazer minha vida mais feliz mandando umas mensagens bem queridas que vão me fazer lembrar de certas coisas e me colocar um sorriso na cara.

 

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  1. primeiro que to com preguiça de logar
    segundo que fiquei curiosa pelas fotos da artista
    terceiro que tô quase chorando
    que saudade!

    tenho umas boas histórias com vcs também, viu. queridíssimas =)

    Responder
  2. Má, muito engraçada essa história!!!
    Dei muita risada….
    Beijos com saudades!!!!

    Responder
  3. leka - a ridícula do sorvete

    essa história é muito boa!! ahhuaha
    sabe o que foi pior? a dona do fundo do ônibus achou que eu tinha pego os carrapichos fazendo coisas, digamos, nada propícias pra uma manhã quente daquelas ¬¬

    porra, que saudades de matar que isso aqui me deu…

    Responder

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