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Cicatriz é coisa de gente viva.

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Já fazem seis meses que meu pai morreu. E eu meio que não queria mais escrever sobre isso pra não baixastralizar (adorei a palavra nova, parabéns a todos os envolvidos) mais as coisas. É que eu tava esperando ter umas ideias legais e…eu morro de saudade do jeito que eu escrevia no Tipos. Lá em 2007, 2008. Mas a gente muda, a vida muda e blablabla.

Teve uma pessoa que me disse: “Sabe, quando meu pai morreu, alguém chegou pra mim e disse: ‘putz, que merda.'”. E talvez fosse mais fácil mesmo. Passei um mês numa bolha de conforto, cuidados e boas lembranças e mesmo quando eu saía afim de dançar até as cinco da manhã, sempre tinha alguém pra perguntar se eu tava bem, se eu tava bem mesmo. Acho que com relação à morte assim, a gente nunca fica bem. è uma merda mesmo. Não é tipo emprego, que você perde, arruma um melhor e tá tudo certo. Pai a gente só perde, não arruma outro. Eu nunca vou estar bem com relação a isso. No fim das contas a gente reaprende a viver, porque não dá pra largar tudo e ir chorar no cantinho.

Sabe, é que chega uma hora que inevitavelmente a gente se liga e percebe que pronto, morreu, não dá pra voltar atrás. A verdade é que é uma merda. Ponto. Não tem pêsames ou boas lembranças ou sei lá. A gente só usa isso pra conseguir continuar. E através disso eu e todo mundo aqui conseguimos, ainda bem. Mas agora, seis meses depois, mesmo com todas as boas lembranças que aparecem, a gente se liga que a única coisa que dá pra falar é: Que merda.

Nesses seis meses eu endureci. Fui obrigada a entender de uma vez por todas que a vida é assim mesmo, e não dá pra fazer nada sobre isso, por mais que achem que não é bem assim. Foi meu único sofrimento na vida, acho. De verdade, coisa que não adianta chamar a mãe pra resolver. Aí eu vi que é essa a ordem natural das coisas, que todo mundo vai passar por isso um dia (tomara, porque eu não quero ver ninguém morrer antes da hora). A diferença é que eu passei antes. Já me revoltei e vi que tava ficando chato. Sempre me pego pensando em alguma coisa assim. Lá na praia eu tive certeza de que meu pai tava por ali. E ficava tudo bem.

Aí eu vi que a coisa toda não se trata da simples morte de um pai ou da morte em si. É que isso tudo me mudou demais, me fez pensar pensar e pensar em muita coisa. Entender muita coisa. Muita coisa que ele dizia,  certas coisas que eu tive que aprender e  que eu vou ter que aprender daqui pra frente, que eu sou uma pessoa de quase 20 anos e eu não vou estar sempre perto da mamãe. Não vou passar a vida gritando “mãããããe!” quando alguma coisa der errado. Tipo na véspera de Natal, que eu fui passar meu vestido e queimei o tule que eu pedi pro costureiro colocar. Gritei minha mãe e antes que eu começasse o drama do vestido ela desceu as escadas já sabendo o que tinha acontecido. Lembro do meu pai dizer que ele e minha mãe não iam estar aqui pra sempre pra me ajudar e que eu tinha que aprender a me virar sozinha. Agora eu entendo isso.

Sei lá, só quis voltar nesse assunto porque nos últimos dias eu tenho me dado conta várias vezes dessa perda. Talvez signifique que a vida tá seguindo, apesar de. Apesar do buraco de canhão no peito. Ele tá aqui, sangra as vezes. Tem uma coisa que eu li num livro e é bem verdade: o meu tiro de canhão é sinal que, bem ou mal, eu sobrevivi. Tô aqui, continuando. O tiro de canhão é sinal que eu tô viva, pronta pra levantar do tombo e continuar, fazer tudo que eu ainda tenho que fazer antes dos 30 e cuidar do sobrinho que vem aí. Ninguém ganha cicatriz depois de morto.

Não queria voltar a escrevendo assim. Queria voltar a escrever daquele jeito leve e engraçado, que esse aqui já tá me enjoando, tô começando a achar chato.

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Uma resposta »

  1. Marina, que texto lindo!
    é bem isso. a gente aprende, de um jeito duro mas aprende.
    e pode continuar escrevdno como queira, tá ótimo!
    beeijos,
    Isa.

    Responder

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