Assinatura RSS

20!

Publicado em

Esqueci de contar: fiz 20 anos. E eu ligo pra essa coisa de aniversário. Foi estranho, mas eu achei que ia ser pior. Não pela “crise dos 20”, que é só uma brincadeirinha. Achei que ia ser pior porque jurava que o buraco de canhão ia me engolir e ficar só ele ali, doendo. Doendo pela falta que faz o meu pai dizendo o que ele dizia em todo 25 de março: “Fui só comprar uma bolacha e quando eu cheguei, essa aí tinha nascido. Nasceu em Cambé. Tava lá, de cabeça pra baixo no berço”; “E a mãe dela ainda brigou comigo quando descobriu que tava grávida, como se a culpa fosse só minha. A tabelinha do Mãe de Deus deu errado e nasceu essa tranqueira aí…” É até estranho lembrar a naturalidade com que ele dizia essas coisas.

E eu fiz 20 anos querendo ter 18, porque no fundo, acho que sou muito nova pra ter 20. Eu aprendi bastante coisa dos 18 até os 20. Aprendi que não é fácil. Que dói. E que a gente sobrevive, no fim das contas. É só continuar. Aprendi que as pessoas vão embora e que isso sempre, sempre vai doer. E não adianta dizer que vai estar sempre por perto, que não sei o que. As pessoas vão embora e é assim mesmo. Não significa que eu vou ficar sozinha. Algumas vezes – e tomara que na maioria delas, já que não vai ter jeito -, eu vou estar junto longe. E outras, não vai ter como: balaço de canhão no meio do peito, take these broken wings and learn to fly. Cicatriz é coisa de gente viva, Marina.

O que importa é que eu aprendi. Hoje eu tava tendo uma conversa séria, contando uma coisa que aconteceu numa cobertura que eu fui fazer e não saiu como planejado. “Tá, e o que você aprendeu com isso?” Porque é assim, né? As coisas nem sempre saem como a gente espera. Eu não esperava perder o pai com 19 anos, não esperava que as pessoas que eu tinha que entrevistar fossem embora no meio do evento. E aí a gente aprende que tem que se preparar pra tudo. Aprende que pelo menos tem que aprender com os tombos que leva, já que a cagada tá feita.

E meu aniversário, o dia, não tava saindo como eu planejava. Não tinha meu pai, pra começar. Tinha todo um machucado que eu não sei porque, mas aí eu entrei no apartamento e vi um montinho pequeno enrolado numa manta de malha e aquela pessoinha pequenininha de menos de três quilos fez tudo ficar menor. E ele ficou maior que tudo. Que toda dor, que toda ranzinzice, que todo o peso dos 20 anos, que todo o desejo contrário de ser gente grande. E até agora eu não consigo entender como aquele pedacinho tampou o buraco de canhão, como eu posso amar tanto uma pessoa que eu nem sei como vai ser. Não sei se ele vai gostar do Pequeno Príncipe, do Rei Leão ou do Clash. Não sei nada dele.

Sei que eu esperei durante nove meses, cuidando de longe aquela barriga que crescia. Sei que eu me desesperei e larguei tudo pra trás quando soube que ele ia nascer uns dias antes. Sei que eu rezei pra que tudo desse certo e não via a hora de olhar pra carinha dele. E aí eu desabei. Desabei porque não dá pra explicar, porque eu esqueci de tudo, porque parou a dor. E era como se o que foi dissesse que agora eu tinha aquela pessoa pequenininha pra ensinar um monte de coisa boa e não dá mais pra ficar chorando.

Anúncios

»

  1. Má! Lindo seu texto! Como todos os outros que você escreveu!
    Bem, a pessoinha está aqui, esperando a páscoa chegar…. pra ver ess tia linda novamente!
    Beijos

    Responder
  2. Caraio Marina, chorei!
    … e olha que nisso eu não sou muito “Carvalho”…
    …não desde “meu pé de laranja lima”, “zezinho, dona da porquinha preta” e meu pai contando a história do menino da porteira! – rsrs

    Mas esse post me fez lembrar o final de “morte e vida severina”, que minha mãe me ensinou a amar…

    “Severino, retirante,
    deixe agora que lhe diga:
    eu não sei bem a resposta
    da pergunta que fazia,
    se não vale mais saltar
    fora da ponte e da vida

    nem conheço essa resposta,
    se quer mesmo que lhe diga
    é difícil defender,
    só com palavras, a vida,
    ainda mais quando ela é
    esta que vê, severina

    mas se responder não pude
    à pergunta que fazia,
    ela, a vida, a respondeu
    com sua presença viva.

    E não há melhor resposta
    que o espetáculo da vida:
    vê-la desfiar seu fio,
    que também se chama vida,
    ver a fábrica que ela mesma,
    teimosamente, se fabrica,
    vê-la brotar como há pouco
    em nova vida explodida
    mesmo quando é assim pequena
    a explosão, como a ocorrida
    como a de há pouco, franzina

    mesmo quando é a explosão
    de uma vida severina.”

    Responder
    • Ah, Samuca, também adoro “Meu pé de Laranja Lima” e o seu pai contando história, qualquer uma.

      E acho que a vida é bem o fim de Vida e Morte Severina mesmo.

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: