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Feliz aniversário, pai

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Foto: Tiago Vidal

A semana começou com a lembrança de que no ano passado você disse que ia me levar pra Curitiba, e eu te fiz assinar um termo de compromisso, dizendo que você iria mesmo. Sua assinatura foi colar um fio do bigode no papel, “porque um fio de bigode vale mais que a assinatura”. Foi o que você disse. E quando eu acordei, fui ali no outro quarto pra te encontrar jogando a paciência spider de sempre. Te perguntei já sabendo que não se você me levaria e você disse: Não, tô doente. E teve a sua festa de aniversário, todo mundo aqui em casa e você quieto num canto, sem dizer muita coisa, meio pálido. Ninguém nem sonhava que era sua ultima festa, pai.

Os ipês cor-de-rosa estão floridos, pai. Lembro que olhávamos todos os dias da janela do hospital. Juntos. O pôr do sol também. Ainda dá pra ver um pouco do céu colorido quando eu saio da rádio, mas quase sempre já começou  escurecer. E você sempre comentava alguma coisa assim, de como escurece de repente. Agora eu não tenho mais tempo pra ver o sol se por com calma, pai. Acho que isso acontece quando a gente cresce. E acho também que você ia ficar orgulhoso, porque agora eu faço alguma coisa. Mas eu queria mesmo que você estivesse aqui, porque eu sempre tenho alguma coisa pra te contar, pra te mostrar. Aí eu abro a porta do seu quarto e seu lado da cama tá vazio e arrumado.

Acho que no meu primeiro texto depois que você foi, eu disse que as coisas mais difíceis iam ser as coisas menores do cotidiano. Não sei a quantas anda a fórmula 1, porque você nunca mais falou nisso. E eu tenho saudade de acordar no domingo com aqueles barulhos de carros. Saudade de chegar de madrugada e te encontrar tomando água na cozinha. Saudade de rir das tuas conversas no fim do dia. Porque as vezes eu imagino se a essa altura, você já teria pego o Pedro no colo e qual seria a piada em gauchês sobre o filho que a Clá e o Gaúcho vão ter.

Hoje é seu aniversário, pai. Lembro que no ano passado, quando eu te abracei, você não quis que eu te abraçasse demais, porque você tava doente. Hoje é seu aniversário. E eu já não posso te desejar nada.  Só posso desejar que o tempo passe e que essa dor vire, sei lá, uma coisa bonita. Porque ela vai doer pra sempre. E que a sua lembrança seja sempre tão bonita quanto a cidade cheia de ipês floridos, o mar batendo nas pedras e o pôr do sol.

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  1. Mais um texto seu que termino a leitura chorando… Nessa madrugada, quando acordei para dar mamá ao Pedro, lembrei que hoje o Betão completaria 63 anos… mas quis o destino que ele ficasse só nos 62… me lembrei da festa do ano passado, e como ele já estava doente, e desanimado… Essa foto dele está linda e é assim que sempre quero lembrar dele: feliz e de bem com a vida! Beijos Betão! Saudades, sempre! Carol

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  2. ana carolina

    que bonito, marina :)

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  3. Coisa linda de texto e coisa linda falar tão bonito da saudade. Por mais que doa…tanto. Beijos

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  4. muita saudades, ma. muita saudades!!

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  5. saudades simmmm, mas lindas lembranças Ma, você consegue escrever e nos fazer emocionar sempre, os olhos tansbordam a saudades que o coração está cheio.
    Tio Betão estaremos sempre com vc hoje e sempre. Força Marinoca…amamos vocês…

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  6. Lindo e emocionante seu post! O Betão era foda…deixou muita saudades!

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  7. Mãrcia Lopes

    Marinoca. Seu tio e eu acabamos de ler o seu blog. Não dá prá não chorar mesmo. A saudade do Betão é imensa e a tradução que você faz da vida dele é incrível. Hoje falamos muito do Betão, mas, difarçando um pouco perto da sua mãe prá dor não aumentar. Fique bem!
    Marcia e Paulo

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  8. Foda demais…

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  9. É com lágrimas que teimam em cair que li tudo que você escreveu sobre seu pai, o nosso Betão, que fez questão de há seis anos atrás batizar a Clara no dia do seu aniversário pra sempre comemorarmos juntos. Pensamos que seriam muitos anos de comemoração… mas Deus achou que lá no céu estavam precisando de agitação, de alguns palavrões e sem dúvidas também estavam precisando de alguém que tivesse o coração, não maior que o mundo, mas que apenas coubesse o Santa Fé, então levou o Betão… que deve estar lá, sentado numa cadeira de madeira igual àquelas da chácara, tomando uma Skol gelada e tocando uma música inteirinha na sanfona “sem parar na metade”. Marina, seu pai de onde estiver, está sempre perto de você! Ele deve estar orgulhoso pela mulher que você está se tornando. Acredito que realmente você aprendeu muito com ele, seja ao observar as belezas simples escondidas na natureza, seja ao caminhar sempre para frente de cabeça erguida, mesmo que a vida não esteja fácil. Amamos você!bjs Josi

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  10. Má, vou te confessar que fazia tempo que não lia seu blog.
    E que me emocionei bastante!!!! Chorei muito, pois a saudades do pai bateu!!! No dia 29 de maio lembrei dele, mas não quis ficar pensando muito para não chorar muito!!!! Sinto uma dor muito grande ainda (como vc diz do tamanho da bala de canhão) e que só o tempo para amenizar.
    Adorei seu texto e ele ira ter um neto com seu nome. Meu filho vai se chamar ROBERTO.
    Beijos com saudades!!!!!
    Clá!!!!!!!

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