Assinatura RSS

Do colchão d’água

Publicado em

Era a primeira pessoa que todos viam ao chegar à casa da esquina. Ele sempre estava no mesmo lugar, na poltrona de couro que ficava de lado pra porta da frente. Gostava de olhar o movimento e ai de quem entrasse pela cozinha. Eu era bem criança, mas já tinha aprendido que tinha que passar por ali antes. Só entendia o que ele falava porque sempre dizia a mesma coisa: “Como tá bonita!” Só dava pra entender “Omo á niiita!” E com suas mãos enormes, ele pegava a minha – pequena e roliça – e dava um beijo. Então eu podia brincar. Achava que ele falava daquele jeito porque era velhinho, que todo mundo ia ficar assim um dia. Também admirava o tamanho de suas orelhas. Eram enormes!

Um dia eu cheguei à casa da esquina e ele não estava lá esperando. Estranho para aquela hora do dia. Havia um silêncio, um murmúrio, um lamento distante. Eu ainda era muito alheia à tudo isso. Tinha o que? Uns quatro anos. Cinco, no máximo. Segui alguém que estava cuidando de mim no dia. Ainda não saía por aí sozinha, apesar da casa da esquina ficar a exatos noventa e oito passos da minha. (Isso antigamente, quando aquele lugar ainda era meu. A distância não mudou e a casa continua ali, na mesma esquina, mas ela já não existe. Nem cheira a café com bolo de fubá no fim da tarde).

Entrei no quarto. Gostava daquele. Tinha a radiola gigante com uns botões brancos que a vó usava de cômoda e o porta retrato vermelho com aquela foto da minha prima. Na altura dos meus olhos, um colchão d’água. Parecia aquelas bexigas que a gente enche pra jogar nos outros. Adorava bexiga d’água. Eu estava frente a frente com uma bexiga enorme, cheia de água e prestes a explodir, porque tinha um homem deitado em cima. E eu fiquei brincando quieta no cantinho, pra não atrapalhar quem estivesse dormindo ali. Quem cuidava de mim não parecia muito feliz, murmurava qualquer coisa. Eu também nem estava prestando atenção, me interessava mais o colchão d´água.

Só depois fui perceber que era ele quem dormia no colchão. E depois desse dia, a cadeira de couro que ficava de lado pra porta ficou vazia.

Texto originalmente publicado em 2009, no blog Gonzada. 

Nunca gosto dos meus textos antigos, mas esse é um dos meus preferidos.

Anúncios

Uma resposta »

  1. Marilda Carvalho Dias

    Nossa Marina eu não tinha lido este texto…lindo e pra variar chorei…

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: