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três meses depois

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No bloco de notas do celular, as anotações de sempre, feitas durante alguma conversa na madrugada. Aquelas coisas que a gente acha que não pode viver sem lembrar, mas que servem mais pra um sorriso besta no canto da boca quando vai procurar onde anotou o número da carteirinha do plano de saúde. Parece que nada mudou e as vezes eu arregalo os olhos no cruzamento da Faria Lima com a Juscelino, porque a minha rotina não cruza mais a Higienópolis e nem come costelinha no Jaime às sextas-feiras.

Três meses depois, a gente começa a achar que entende o que tá acontecendo. Nunca vai entender. Só vai – do mesmo jeito que eu vim. Foi assim quando agosto chegou há três anos. Ainda me pego sonhando com o meu pai como se ele estivesse vivo. Aí eu acordo e lembro que não.

Uma das notas da madrugada falava de agosto. Se você não conseguiu fazer nada até agosto, é difícil que faça nos outros quatro meses. Agosto é difícil porque não tem feriado. Muita coisa acontece em agosto. Nem consegui falar nada, porque agosto me dói. Aí me dei conta de que meus amigos estavam falando de inferno astral em julho e de quantas vezes eu tive que festejar gente querida nas últimas semanas. Agosto me deu muita gente. Me dou bem com virginianos, apesar de não saber nada de signo. Sei que o fato de ser ariana tem algo a ver com meu mau humor matinal. Foi um virginiano quem me contou. Não sei se reparar no mau humor matinal dos outros é uma característica dos virginianos.

Esqueci sobre o que era isso.

Sobre não entender. Sobre o destino da ida e da volta estarem trocados na passagem. Sobre não saber o que pensar disso tudo, depois de três meses.

E enquanto a Gal cantava, ele me disse “é estranho voltar pra cidade da gente e ver que a vida continua quando você tá longe, né?” É isso. Continua e continua a mesma coisa. E foi por não querer mais a mesma coisa que eu fiz as malas. Tá tudo ali. Tudo aqui, porque eu sou feita dessas coisas todas. De gente que faz passarinho de pano pros aniversários, de gente que fica triste porque não fez doce de abóbora. De gente que corre no estacionamento.

É que aqui nada é a mesma coisa ainda. A banca de revista tá pintada cada dia de um jeito, cada dia tem uma coisa diferente pra ver na rua. Cada dia aparece uma revista nova.  E todos os dias eu tropeço em um obstáculo novo na mesma calçada.

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  1. Marilda Carvalho Dias

    Escreva sempre Marina, é muito bom. Beijos.
    Marilda

    Responder
  2. Ana Paula Lopes

    hahahaha, vc sabe que os passarinhos estarão sempre te esperando de asas abertas aqui na terrinha, e que apesar do seu passarinho ter alçado novos voos, ele sempre volta pra casa pra ganhar amor e recarregar as energias… te amo…

    Responder
  3. Myriam Carvalho

    muito bom…. Marina! E quando saímos da cidade de onde viemos nos damos conta do tamanho do mundo, mas o melhor é saber que sempre temos pra onde voltar.
    Beijo cheio de saudade

    Responder
  4. Maria do Carmo

    legal, Marina!! eu também ando fotografando os grafittis deste bairro!!!

    Responder

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