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Arquivo do autor:Marina Dias

Floradas

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As vezes meu pai dizia que alguém não ia chupar manga naquele ano. Significava que ele estava prevendo que a pessoa ia morrer antes do ano acabar. (E quase sempre ele acertava.)

Quando ele ficou internado – do começo de julho até o primeiro dia de agosto – ficávamos olhando os ipês floridos pela janela do hospital. E eu achava bem bonita a delicadeza dele ao observar aquilo.

Já faz umas semanas que eu saio e volto pra casa admirada com as roseiras dos jardins do condomínio. Hoje, me peguei pensando que no ano passado, eu ficava encantada com as rosas dos jardins das casas de madeira típicas de Londrina.

Fui embora com as rosas.

Floresci com as gardênias, passei pelas amoreiras pintando o chão e pelas goiabeiras carregadas deixando o bairro com cheiro de goiabada.

As angústias passam entre uma florada e outra.

As mangueiras sempre vão estar cheias em dezembro. As roseiras, os ipês e as gardênias vão florir sempre na mesma época.

A gente passa.

 

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Pavê de nozes.

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E tem o pavê de nozes da minha irmã. Um clássico das festas de fim de ano. O fantástico mundo do chantilly batido à mão que se alterna entre camadas de bolacha, doce de leite e nozes. É tão bom que ninguém se atreve a fazer a piada mais infame de todos os tempos.

O pavê de nozes é uma declaração de amor.

Almoço de ano novo, família reunida, calor londrinense, puta ressaca. Aí todo mundo te pergunta o que você vai fazer da vida que você já tá se formando, mas nossa, ainda não sabe? A cabeça dói, você come até entrar em estado de esfinge e aí chega o pavê. Tudo passa na hora do pavê de nozes. Ele cura ressaca, calor, mau humor, insegurança.

É tão milagroso que você nem se incomoda quando está prestes a dar a primeira garfada e é interrompida pela sua prima grávida, que te pede pegar um pavê pra ela. Você levanta, atravessa o recinto e pega o pavê feliz da vida. É uma nova geração sendo bem alimentada, afinal de contas.

Aí você volta com os dois pratos de pavê, um em cada mão.

Aquilo é tão bonito que te impede de ver os degraus irregulares que te separam da sala. Você tropeça no primeiro, no segundo, cata cavaco, tropeça no terceiro degrau, no tapete, tenta reagir, aí vem a soleira e te tomba.

E você cai no meio da sala, entre os dois sofás, na frente de todo mundo, com a bunda descoberta. As tias vem pra cima pra cobrir as vergonhas, pra lamentar o desperdício de pavê, pra ver se tá tudo bem.

Tá tudo bem. Os cotovelos tão meio ralados, os joelhos vão ficar roxos, mas ok.

Os pavês estão intactos, é o que importa.

Resolvi revirar rascunhos antigos, boa noite.

Da leveza dos sabiás no meio do concreto.

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Das coisas mais legais de crescer na UEL era ver os bichos que andavam pelo Campus. Gatos, muitos cachorros (salve Getúlio, o bicho mais querido do CECA), macacos que apareciam na cantina do CESA na hora do almoço, tucano, pica-pau, uns passarinhos coloridos que eu não sei identificar, urubus que me davam medo e até um cavalo perdido no RU uma vez.

No meio dessa bagunça toda, tem uns detalhes que passam, tipo o tanto de bicho que tem na UEL. Por outro lado, o olhar de estrangeira permite perceber que aqui tem poucas pombas. Ou não tem tantas. (E toda vez que eu digo isso, preciso explicar que na minha cidade já morreu gente por causa da doença do cocô da pomba). Acho engraçado o hábito do paulistano de levar o cachorro pra todo lugar. Outro dia quase tropecei em um cachorro imenso amarrado pra fora de um restaurante japonês aqui perto de casa.

Todas as manhãs, enquanto tomo meu café na janela da cozinha, fico olhando pras árvores que tem no meio dos prédios aqui do condomínio. Embaixo da nossa janela, tem uma sibipiruna enorme e bem bonita, que fica toda agitada com os passarinhos que pulam de galho em galho. Aprendi a parar uns minutos pra olhar os passarinhos azuis, os bem-te-vis, os sabiás-laranjeira e umas maritacas barulhentas e engraçadíssimas que dão as caras de vez em quando.

Sexta-feira passada, estava voltando a pé do bar e ouvi o canto dos sabiás. Achei que tava muito tarde, mas eram só duas da manhã. Depois de umas conversas com desconhecidos, vim achando que a lógica aqui é outra. Achei que talvez a gente deva parar pra escutar os passarinhos as vezes. Que senão a gente entra nessa coisa maluca de querer mais mais mais sempre e esquece de viver. É uma lógica onde o canto do sabiá-laranjeira atrapalha seu sono de gente que precisa acordar cedo pra retomar uma rotina maluca e você nem consegue perceber que ele é bem bonito.

Segunda a Folha publicou uma matéria sobre os sabiás baderneiros que não deixam ninguém dormir. E eu, que me obrigo a todos os dias perceber qualquer detalhe que deixe mais leve esse mundo de concreto, cheio de valores, contas e coisas complexas, fiquei pensando em quem perde o sono por causa do canto dos sabiás.

 

Deve ser muito difícil.

São 1h37. Lá fora, os sabiás.

Nota mental.

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São duas e meia da manhã. Os bem-te-vis e sabiás-laranjeira já estão cantando. Descobri que são bem-te-vis e sabiás-laranjeira ao assistir a bagunça que eles fazem entre as árvores enquanto eu tomo meu leite na janela, antes de sair pro trabalho.

Meus amigos podiam me desejar sucesso na carreira, grana, um moço ótimo. Desejaram que eu não endurecesse.

Existe muita dor por aí. A vida não é fácil. E é bem mais difícil pra um monte de gente. Bem mais difícil e dolorida que três horas de trânsito todos os dias. Não endurecer é questão de sobrevivência.

Endurecer é não saber que cor tem a terra dos canteiros da praça. Mas calma, tem terra aqui? Endurecer é viver sem ver e achar que não dá pra ser de outro jeito. Endurecer é enxergar tudo igual sempre.

três meses depois

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No bloco de notas do celular, as anotações de sempre, feitas durante alguma conversa na madrugada. Aquelas coisas que a gente acha que não pode viver sem lembrar, mas que servem mais pra um sorriso besta no canto da boca quando vai procurar onde anotou o número da carteirinha do plano de saúde. Parece que nada mudou e as vezes eu arregalo os olhos no cruzamento da Faria Lima com a Juscelino, porque a minha rotina não cruza mais a Higienópolis e nem come costelinha no Jaime às sextas-feiras.

Três meses depois, a gente começa a achar que entende o que tá acontecendo. Nunca vai entender. Só vai – do mesmo jeito que eu vim. Foi assim quando agosto chegou há três anos. Ainda me pego sonhando com o meu pai como se ele estivesse vivo. Aí eu acordo e lembro que não.

Uma das notas da madrugada falava de agosto. Se você não conseguiu fazer nada até agosto, é difícil que faça nos outros quatro meses. Agosto é difícil porque não tem feriado. Muita coisa acontece em agosto. Nem consegui falar nada, porque agosto me dói. Aí me dei conta de que meus amigos estavam falando de inferno astral em julho e de quantas vezes eu tive que festejar gente querida nas últimas semanas. Agosto me deu muita gente. Me dou bem com virginianos, apesar de não saber nada de signo. Sei que o fato de ser ariana tem algo a ver com meu mau humor matinal. Foi um virginiano quem me contou. Não sei se reparar no mau humor matinal dos outros é uma característica dos virginianos.

Esqueci sobre o que era isso.

Sobre não entender. Sobre o destino da ida e da volta estarem trocados na passagem. Sobre não saber o que pensar disso tudo, depois de três meses.

E enquanto a Gal cantava, ele me disse “é estranho voltar pra cidade da gente e ver que a vida continua quando você tá longe, né?” É isso. Continua e continua a mesma coisa. E foi por não querer mais a mesma coisa que eu fiz as malas. Tá tudo ali. Tudo aqui, porque eu sou feita dessas coisas todas. De gente que faz passarinho de pano pros aniversários, de gente que fica triste porque não fez doce de abóbora. De gente que corre no estacionamento.

É que aqui nada é a mesma coisa ainda. A banca de revista tá pintada cada dia de um jeito, cada dia tem uma coisa diferente pra ver na rua. Cada dia aparece uma revista nova.  E todos os dias eu tropeço em um obstáculo novo na mesma calçada.

(x) Só de ida

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Acho que nem que eu quisesse planejar minha vida, as coisas dariam tão certo. Pra falar bem a verdade, acho que tenho um pouco de preconceito contra projetos de vida, planos a longo prazo, o que deve e o que não deve acontecer. Acho que a gente tem que ir atrás do que quer e quando é assim, as coisas acontecem. Não é ficar parado esperando a oportunidade perfeita cair do céu pra gente construir uma vidinha perfeita e planejada. Meu negócio é plot twist.

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Foi por isso que quando me perguntaram se eu estaria disponível, disse que sim, sem nem pensar duas vezes. De um dia pro outro, me vi arrumando mudança, me despedindo dos amigos e comprando uma passagem só de ida. Dói comprar passagem só de ida. Marcar essa opção na loja virtual significa deixar pra trás família, casa, amigos, a república preferida e a costela do Bar do Jaime. Significa que a rotina agora é outra, que a vida agora é outra. Significa que a gente passa a carregar isso tudo no coração.

Hoje fui andar pelo meu bairro novo. É uma caminhada considerável de casa até o metrô. Fui andando devagar, apreciando os detalhes. A cada grafitti, a cada construção inusitada no meio da cidade e a cada jardim, ia me lembrando de pessoas queridas. Isso significa que todas as minhas pessoas não ficaram pra trás. Tá tudo bem aqui, marcado em mim e eu vou levar isso pra todo lugar.

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Ainda é meio difícil assimilar tudo: mudança, trabalho, cidade grande. Ônibus lotado não é fácil, distância não é fácil, custo de vida alto não é fácil. Ver gente dormindo na rua não é nada fácil. Só que a gente precisa enfrentar o mundo de verdade. “Tem que se virar!”, é o que meu pai dizia sempre. Nas últimas semanas, parece que ele soprava no meu ouvido as cenas dos próximos capítulos, coisa que ele adorava fazer. Coisa que a Tia Ana fez por ele, dando o maior apoio do mundo, acalmando, encorajando e me arrumando as malas.

Tá divertido, eu não to sozinha ou desamparada e o aprendizado é diário. Tem essa coisa ótima de todo dia conhecer algo novo. Meu bairro é cheio de graffitis, bares e ruas com nomes legais pra alegrar meus dias na cidade cinza. E já que eu vivo de saudade, vou ter muita pra acumular até ir pra Londrina.

As imagens deste post foram feitas hoje, durante minha caminhada até o metrô Vila Madalena. Eu, que sou apaixonada por detalhes no meio de qualquer coisa, não sei pra onde olhar por aqui.

Quais são as chances?

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Sempre que acontecem umas coincidências, eu fico pensando em quais eram as chances daquilo acontecer. Lembro que no primeiro colegial, fiz um trabalho de matemática sobre probabilidades. A tarefa era calcular a probabilidade de alguém ganhar na Mega Sena. Nunca gostei muito de matemática e não me lembro qual foi a conclusão, mas a possibilidade era mínima.

Outro dia eu estava andando com o meu primo na Vila Madalena, quando escutei alguém chamar meu nome. Meu primo disse que também tinha ouvido alguém gritar o nome dele. Olhamos na rua, não tinha ninguém. Fiquei pensando em quais eram as chances de alguém que conhecia ambos (vamos lá: nossa família, mais alguns amigos…umas 200 pessoas no mundo) estar em São Paulo (cai pra umas 15 pessoas) e passar bem ali, naquela rua, bem naquela hora, numa cidade de alguns milhões de pessoas. Achei que era coisa da minha cabeça, não era possível. Era sim. Depois, descobri que era uma prima nossa.

Mas a gente encontra as pessoas por aí, né?

É que eu gosto de coincidências e fico pensando nisso, em quais são as chances…deve ser por isso que uma das minhas comédias românticas preferidas é Serendipity, com todos aqueles encontros, desencontros e coincidências.

Quando minha irmã morava em Londres, foi comemorar o aniversário em um pub. Ela se divertiu horrores e ficou com um moço que estava lá jogando sinuca. Eles começaram a namorar, casaram e aí o cara da sinuca virou pai do meu sobrinho. Quer dizer…quando, mas quando na vida a gente ta lá no meio do pub e imagina uma coisa dessas? Quais são as chances? (Até que devem ser grandes, porque eu conheço uma outra história bem parecida com essa aí.)

Enfim, só uma notinha mental pra dizer que, coincidência ou não, tem coisas que acabam acontecendo. Aquela história de sempre de que “era pra ser”.